A  Ordem  de  Cluny na  História:

Quando os homens pareciam anjos

 

 A abadia de Cluny, na Borgonha, França, hoje está em ruínas.Mas ruínas que transmitem uma sublime mensagem. Porque essa abadia foi habitada pela "alma da Idade Média".Foi fundada em 910 pelo Bem-aventurado Bernon em terras doadas pelo Duque da Aquitânia, Guilherme o Piedoso.Nela se sucederam quatro grandes Abades santos - Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo - durante dois longos séculos.A França comemorou especialmente o 1100º aniversário da fundação da Abadia de Cluny, a mais célebre e grandiosa da Idade Média, destruída pelo furor dos adeptos da Revolução Francesa a partir de 1789.

A abadia de Cluny foi arrasada pela barbárie anticristã dos seguidores da "Filosofia das Luzes".

A carta de fundação da abadia, assinada em setembro de 910 pelo poderoso duque da Aquitânia Guilherme I, cedia a Bernon, abade de Baume-les-Messieurs, uma terra chamada Cluny, na diocese de Mâcon, a cerca de vinte quilómetros desta cidade, bem no centro da França. 

Esta carta de fundação explicitava com precisão a criação de uma abadia que seguisse a Regra de São Bento.
Com Bernon, vieram alguns monges, os primeiros religiosos da nova abadia, que se enquadrava no projeto de reforma promovida por Bento de Aniane (750-821), o qual pretendia unir todos os mosteiros da Europa Ocidental sob a observância da Regra Beneditina.
Por esta filiação, se poderá constatar o papel que Cluny desempenhará na difusão da reforma da Igreja mais tarde lançada de forma empenhada pelo papa São Gregório VII (1073-1085), a denominada "reforma gregoriana".
Cluny, conforme se pode depreender a partir do vocativo (S. Pedro) da abadia, estava diretamente sujeita à Santa Sé, por isso subtraída à jurisdição do bispo de Mâcon.
Os abades de Cluny entre os séculos X e XII foram personagens importantes no seu tempo: Bernon (910-927), Odon (927-942), e principalmente os três mais famosos, Maïeul (948-994), Odilon (994-1049) e Hugo (1049-1109).
Depois deste tio-avô de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, a abadia conheceu tempos menos brilhantes, devido ao abaciado de Pons de Melgueil (1109-1122), figura instável.
Todavia, o seu sucessor conseguiu recuperar e sublimar até o prestígio de Cluny: Pedro de Montboisier (112-1156), dito o Venerável, homem de grande cultura e figura de proa da Cristandade medieval.
Era a época do apogeu de Cluny, com mais de 1180 mosteiros dependentes na Europa, dos quais mais de 800 só na França.
Isenta face ao poder secular dos senhores laicos e à jurisdição dos bispos, a abadia de Cluny conseguirá escapar ao controlo do poder régio até ao século XVI, ao contrário de muitas outras congéneres.
Naquela centúria, no entanto, os seus abades passaram a ser nomeados pelo rei de França, ao abrigo da Concordata de Bolonha de 1512.
Com o Concílio de Trento, Cluny organiza-se em torno de uma congregação. Um dos priores mais famosos de Cluny, o cardeal de Richelieu (entre 1629 e 1642) tentou unir a congregação à dos Mauristas (de St. Maur), conhecidos pela sua erudição e labor científico profundos.
Esta união não sobreviveu à morte de Richelieu (1644).
Também um intento de união com outra congregação beneditina francesa, a de St. Vanne, levado a efeito por Mazarin, também cardeal e ministro de França como Richelieu, gorou-se em 1654.

As Luzes e o século XVIII revelaram-se ainda mais nefastos para Cluny, acelerando a sua decadência. Assim, em 1744, o bispo de Mâcon acabou por impor a sua jurisdição sobre esta velha abadia.

Reconstruiu-se então o edifício monástico ao gosto da época, embora a ocupação monástica fosse cada vez mais reduzida: em 1790, a comunidade não tinha mais de 35 monges.
Nesse mesmo ano, na sequência da Revolução Francesa iniciada em 1789, a abadia foi suprimida por decreto revolucionário, ficando à mercê da pilhagem, que ocorreu em 1793.
Depois foi posta à adjudicação em 1798, tendo sido comprada em hasta pública por um privado, que logo desmantelou a abadia.
Como ordem religiosa, esta grande abadia era a cabeça de um dos ramos mais importantes do monaquismo beneditino: a ordem de Cluny.
O abade do mosteiro era o superior da família cluniacense, com todos os abades e priores das centenas de casas da ordem a prestarem-lhe homenagem feudal de vassalagem, numa sujeição variável.
Era também este abade de Cluny quem nomeava os superiores dessas comunidades dependentes.
Nesta perspetiva, pode falar-se de um "monaquismo cluniacense", ainda que a autonomia que a Regra Beneditina conferia aos mosteiros atenuasse essa sujeição, ao contrário da forte centralidade cisterciense.
Existiam as casas ditas "dependentes", com superior nomeado e controlado pelo abade de Cluny, e as "subordinadas", com o abade a ser eleito pela comunidade.
Deste último grupo faziam parte as cinco "filhas" de Cluny: Souvigny, Sauxillange, La-Charité-sur-Loire, St. Martin-des-Champs (Paris) e Lewes (Inglaterra).
Todavia existia uma uniformidade de observância e de costumes monásticos entre todas as casas cluniacenses.
A originalidade de Cluny traduzia-se essencialmente na liturgia, nutrida e apoiada pela frequência e grande duração dos ofícios.

Era de uma riqueza excecional, ímpar até aos dias de hoje, ilustrando a vitalidade de uma espiritualidade completamente direcionada para Deus.

Tudo era pouco para honrar e dignificar a Deus, diziam os cluniacenses, como forma de justificar a pompa, magnificência artística e estética e grande elaboração da sua liturgia e da arte dos seus belos mosteiros.
De facto, a arte cluniacense inscrevia-se nesta perspectiva grandiosa, de grande qualidade e apuro estéticos, com uma riqueza de simbolismo patentes nas artes plásticas e na arquitetura.
Os monges de Cluny, na sua expansão pela Europa, desempenharam um importante papel na vida e política da Igreja, mesmo na organização política, econômica e territorial de vastas regiões, assumindo-se quase como um senhor temporal e fundiário igual a tantos outros.
Mas a sua importância, superlativada pelos seus abades notáveis em torno do Ano Mil, foi maior em termos espirituais e na "alta" política europeia, como sucedeu quando o imperador germânico Henrique IV apelou a Cluny para mediar a Querela das Investiduras.
Também as peregrinações medievais muito devem a Cluny e à sua rede de mosteiros, principalmente ao longo dos chamados "caminhos franceses" em direção a Santiago e mesmo dentro das Espanhas, no "caminho francês".
A tradição da hospedagem e apoio aos peregrinos eram apanágio da Regras Beneditinas e uma forma de enfatizar a importância social dos mosteiros que Cluny muito bem soube aproveitar.
Em Portugal, Cluny teve uma importância política menor em relação a outras ordens, como Cister ou os Mendicantes, por exemplo.
Em Portugal, depois do concílio de Coiança (1050-55, cânon 2) ter introduzido a Regra Beneditina em Portugal, vários foram os mosteiros que a seguiram.
No entanto, apenas três estavam "subordinados" a Cluny. Esses três mosteiros ditos cluniacenses foram S. Pedro de Rates, Santa Maria de Vimeiro e Santa Justa de Coimbra.

       O caminho para a Santidade 

"Medita em todo momento as palavras de Deus, persevera na fadiga, dá graças em todas as coisas, fuja dos aplausos dos homens, ama a quem te corrige no temor de Deus. Que todos te sejam de proveito, para que tu sejas de proveito a todos. Persevera em tua obra e em palavras de bondade. Não dês um passo adiante e outro atrás, a fim de que Deus não deixe de te amar. A coroa, com efeito, será para quem haja perseverado. Obedece sempre mais a Deus, e Ele te salvará".(São Pacômio -Rancor de um Monge)

São Pacômio 

São Pacômio, nascido em 292 d.C., provinha de família pagã e converteu-se ao Cristianismo quando contava com 20 anos de idade, seguindo educação ascética. Em 320, fundou seu primeiro mosteiro em Tabenesi, na Tebaída (Alto Egito), dando início ao monacato cenobita (comunitário), que perdura até os nossos dias. Morreu em 346, deixando como obras a "Regra Monástica", com 194 artigos, diversas exortaçõesa seus monges, e 11 cartas a abades e irmãos religiosos. Sua memória é comemorada pela Igreja em 9 de maio. A Ordem Beneditina comemora no dia 15 de maio.Este trecho é tirado de uma de suas exortações aos monges, tratando do perigo do rancor. Como é sabido, os primeiros monges se isolavam no deserto; com Pacômio, surgem as primeiras comunidades de monges, que se caracterizam pela partilha total dos bens, oração comum, observância à mesma Regra, trabalho manual e obediência absoluta ao abade.Exortação pronunciada por nosso mui venerável santo padre Pacômio, o santo Arquimandrita, em motivo de um irmão que guardava rancor contra outro. Em tempos do abade Ebonh, que havia levado aquele irmão a Tabennesi, Pacômio lhe dirigiu estas palavras na presença de outros padres anciãos, para sua grande alegria, na paz de Deus! Desçam sobre nós suas santas bênçãos e as de todos os santos! Que todos possamos ser salvos! Amém.

(Homem algum é uma ilha - Thomas Merton)

Vocação Monástica 

Se o Padre, de algum modo, pode ser definido pela necessidade que têm os outros homens de sua ação santificante no mundo, isso é menos evidente num monge.

A vocação dá testemunho da infinita transcêndencia de Deus, porque proclama em face do mundo que Deus tem o direito de separar alguns homens para que eles possam viver somente para Ele.

A essência da vida monastica é justamente esse abandono do mundo e de todos os seus desejos, ambições e interesses, a fim de viver não só para Deus, mas de Deus e em Deus, e não por alguns anos, mas para sempre!

A graça que chama um homem para o mosteiro exige mais do que uma transposição material de ambiente. Não há vocação monástica autêntica que não implique, ao mesmo tempo, uma completa conversão interior.

A caracteristica essencial de uma vocação monástica é que ela atrai o monge para a solidão, para uma vida de renúncia e de oração, para procurar só a Deus. Onde faltam esses traços, a vocação pode, sem dúvida, ser religiosa, mas não é propriamente monástica.

A conversão interior que constitui o monge mostra-se externamente por certos sinais: Obediência, Humildade, Silêncio, Desprendimento, Modéstia, que podem resumir-se numa só palavra: PAZ!

O mosteiro é uma casa de Deus, por conseguinte, um santuário da paz. A vida monástica arde diante de Deus invisível comouma lâmpada defronte do tabernáculo. A mecha da Lâmpada é a fé, a chama é a caridade,e o óleo que alimenta a chama, é o sacrifício de si mesmo.

De todas as ordens religiosas, as ordens monásticas são as que possuem as mais antigas e monumentais tradições. Ser chamado a vida monástica é ser chamado a uma forma de santidade, enraizada na sabedoria de um distante passado e no entanto, viva e jovem.

Poderiamos melhor compreender a beleza da vocação religiosa se nos lembrássemos de que o casamento, é também vocação. A vida religiosa é uma forma especial de santidade, reservada comparativamente a poucos.

O caminho ordinário de santidade e de plenitude da vida cristã é o casamento. É no estado conjugal que em sua maioria os homens e as mulheres se tornarão santos. Os pais cristãos, se são fiéis as suas obrigações, cumprirão uma missão tão grande quanto consoladora: a de trazer ao mundo e formar almas jovens, capazes de felicidade e de amor, almas capazes de santificação e de transformação em Cristo.

Deus quis que em todas as vocações se manifestasse o seu amor no mundo. A diferença entre as vocações reside na diversidade dos meios que cada uma dá aos homens para descobrir o amor de Deus. Cada vocação tem por objetivo propagar a vida divina no mundo.

Homem algum é uma ilha 

(Thomas Merton) 

Na vida contemplativa, os problemas e as dificuldades são mais interiores e também muito maiores. Aí,o divino amor é menos encarnado. Em uma vida de solidão e silêncio, os afetos humanos não recebem muito da sua normal satisfação.

A ausência quase total de expressão pessoal, a frequente impossibilidade de fazer coisas por outros pode levar a grandes decepções. Eis a razão pela qual a vocação puramente contemplativa não convém a quem não é maduro. É preciso ser muito forte e muito sólido para viver na solidão.

Quanto mais alto subimos na escala das vocações, tanto mais cuidadosa deve ser a seleção dos candidatos. Normalmente, mais da metade dos que se apresentam à admissão nos mosteiros contemplativos não tem vocação.

Quanto mais estrita e solitária uma ordem contemplativa, tanto maior será o Hiato entre atração e aptidão. Nigué pode suportar à vida à parte se o seu desejo de "solidão" é formado por um desejo recalcado de afeto humano. É inútil tentar alguém viver num claustro a sua vida,se o coração é devorado pelo pensamento de que ninguém o ama.

É preciso ser capaz de não fazer caso de tudo isso e simplesmente amar o mundo inteiro em Deus abraçando todos os irmãos nesse mesmo amor puro.

Dizer que a vida monástica e contemplativa é mais rigorosa do que a vida ativa, não é dizer que o contemplativo trabalha mais rigorosamente. A vida contemplativa é, sob muitos aspectos mais fácil do que a vida ativa. O que não é mais fácil é vive-la bem.

A atração por certo tipo de vida e a aptidão para a mesma ainda não são suficientes para estabelecer a certeza da vocação.

A coisa que resolve em definitivo uma vocação é a capacidade de tomar a firme decisão de abraçar certo estado d vida e de agir segundo essa decisão.

Se uma pessoa não consegue jamais se decidir, jamais se resolver a fazer o que é preciso para seguir uma vocação, não tem provavelmente vocação. Ela pode ter-lhe sido oferecida, mas isto é coisa que não pode decidir com certeza.

Mas uma calma e definida decisão, que não desanima com os obstáculos nem se quebra ante a oposição é um bom sinal de que Deus deu a graça de responder ao Seu chamado e que é correspondido!

(Homem algum é uma ilha - Thomas Merton)

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